Saída
É um mundo paralelo, onde os pensamentos mais insanos divagam sem parar e ideias viciantes surgem do nada. Sim, aqui é a minha mente, com quem luto diariamente. É a minha força, mas também o meu maior inimigo. Instantes separam a alegria da dor, e um dia que começou estável, que parecia ser só mais um dia normal, torna-se o primeiro de uma estrada que já conheço: a do fundo do poço. O poço é sempre muito escuro, frio, solitário e muito, muito vazio. Apavora, amendrota. Entorpece, entristece. Tento respirar, mas sinto uma falta de ar que chega a doer no peito. Desesperada, em busca de um pensamento positivo, de algo que me faça sair dali, os pensamentos negativos caem como um peso gigantesco na minha cabeça. Então, penso no caminho da subida, que é muito difícil, muito pesado, que vou ficar com calos e feridas, que vou me sentir mais sozinha e vazia. Solto a pedra e caio de novo. E a cada tentativa fracassada, a queda é dolorosa. Quando entrei no poço, não entrei porque gosto de ficar ali. Mas já se tornou uma espécie de casa, de lar. Eu já sei o que me espera e o que eu vou sentir. Não é como o mundo, que me dá tanto medo todos os dias. Então por pior que pareça, é isso que me faz querer ficar, inúmeras vezes, no fundo do poço. Lidar com minha dor? Criar forças quando não resta mais nada? Rezar e chorar implorando a Deus pra me dar coragem pra continuar? É muito desgastante. Mas o pior de tudo, sem duvida alguma, é saber que mesmo que eu fizer tudo isso, eu vou sair e viver longe do poço por um tempo, mas eu sempre vou voltar pra lá e ele nunca vai sair da minha vida. Sabe por quê? Porque eu nem sei o que é uma vida sem esse poço. Minha existência é baseada em entrar e sair dele. Às vezes passo mais tempo lá, outras vezes passo menos, mas em todas as minhas memórias, ele esteve presente. No vazio da minha alma, no mais íntimo do meu ser, tem sempre algo que me diz que um dia eu vou pra não voltar mais. E esse algo não quer ir embora. Esse algo se faz presente até quando eu me anestesio por completo da dor de ser quem eu sou. Ele está ali, cada vez que tomo um dos meus remédios, cada vez que olho para as marcas do meu corpo, cada vez que lembro da minha história de vida. Eu ainda estou na luta pra tentar vencer eu mesma, todo dia, a cada hora do dia, a cada levantar e deitar da cama. Mas hoje, termino o dia com uma vitória para o livro da minha história: mais uma vez, eu sai do poço. Sim, eu estava lá. Foram quase 4 semanas na pior escuridão e cegueira que se pode imaginar. Mas mesmo pequena, eu abro espaço pra força e a fé entrarem em mim. Foi assim que parei de pedir pra morrer e passei a dizer que eu vou vencer. Levantei, tomei banho, esfreguei o rosto, lavei o cabelo. A água tirou as manchas da dor, da angústia e da tristeza. E eu posso dizer que sim, eu sou forte. A cada queda, a saída do poço tem tornado-se mais difícil e penosa. E mesmo assim, por piores que tenham sido os períodos que passei lá dentro, eu sempre sai. Hoje, o sol brilhava tão forte quando voltei pro mundo, que por uma fração de segundo, eu pensei: talvez, quem sabe, um dia eu nunca mais caia lá dentro.

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